Separar a doença de Alzheimer da pessoa idosa

Quando o Alzheimer muda o comportamento
Essa é uma situação difícil, daquelas que a gente nem imagina, até conviver de perto. Veja o caso de Sr. Jurandir, um idoso de 85 anos, que sempre foi conhecido como um homem tímido, daqueles que corava até por receber um elogio. Só que, nos últimos meses, a doença de Alzheimer começou a mudar tudo e de um jeito que deixou a família sem chão. Ele passou a fazer comentários de duplo sentido na frente das visitas, insiste em procurar a esposa para relações íntimas no meio do almoço em família e, em alguns momentos, até mexe no próprio corpo em público, como se não percebesse onde está.
A família se pergunta: "Cadê o pai que a gente conhecia? Por que ele está agindo assim?". E a resposta, embora dolorosa, está no avanço silencioso da doença de Alzheimer. É como se, aos poucos, uma parte do cérebro fosse "desligando" os freios que a gente usa para saber o que é certo ou errado.
Por que a doença muda a forma de agir
Pense naquele momento em que você quase fala uma bobagem, mas segura a língua porque percebe que não é hora. Pois é, o lobo frontal, a área do cérebro que faz esse "freio", vai se deteriorando com a doença de Alzheimer. Sem ele, a pessoa age por impulso, como uma criança que ainda não aprendeu o que é vergonha. E pior: outra região, a que controla emoções e desejos (o sistema límbico), pode ficar "desregulada", como um botão de volume quebrado, mostrando alguns comportamentos que antes eram controlados. Junte isso a uma bagunça nas substâncias químicas do cérebro — menos acetilcolina (que ajuda no autocontrole) e mais dopamina (que dá gás aos impulsos). E pronto: Jurandir, que antes morria de vergonha de um abraço mais longo, agora age como se as regras sociais não existissem.
A esposa dele, Dona Joana, confessou que já chorou escondido: "Parece que ele virou outra pessoa. Até penso: será que ele faz por maldade?". Mas não é. A doença de Alzheimer apaga a noção de contexto, de tempo e de respeito. É como se a doença liberasse geral, fazendo com ele que não reconheça mais o que é privado, o que é público ou o que desrespeita e machuca os outros.
Como a família pode lidar com essas mudanças
A família de Jurandir está aprendendo que cuidar de alguém com Alzheimer, é aceitar que a pessoa que existia antes, está diferente. E essa mudança inclui gestos, personalidade, até a timidez que antes o definia. Mas há um consolo: por trás daqueles comportamentos que chocam, ainda existe um homem que ama a família, só que preso num cérebro que não obedece mais às regras.
A lição mais dura? Separar a doença da pessoa. Quando ele age de modo inapropriado, não é o "verdadeiro" Jurandir. É a doença de Alzheimer falando e agindo por ele. E a melhor forma de honrar quem ele foi, é lembrar que, lá no fundo, ele ainda merece dignidade e respeito, mesmo quando a doença tenta roubar isso dele.

Dr. Márcio Fernando Borges
Geriatra e Cardiologista · CRM-SC 20861 · RQE 12089 · RQE 12090
Médico com mais de 35 anos de experiência em Geriatria e Cardiologia. Referência em saúde da pessoa idosa no oeste de Santa Catarina.
