Quero ir para minha casa!

O relógio da parede marcava 17:20h naquela tarde de outono. Através da janela da cozinha, Maristela observava como o céu ainda mantinha sua claridade, embora soubesse que a noite não demoraria a chegar. Enquanto dobrava uma camisa tirada do varal, seu olhar desviou-se para Dona Hildegarda, que a ajudava na tarefa.
Foi então que percebeu os primeiros indícios. Sempre começava da mesma forma: os olhos de sua mãe, antes concentrados nas roupas, agora vagavam inquietos pelo ambiente até fixarem-se no relógio da cozinha.
"Que horas são, filha?" perguntou Dona Hildegarda, pela terceira vez em menos de dez minutos.
Maristela respirou fundo, preparando-se para o que viria. Aquilo havia se tornado um ritual quase diário em suas vidas. O geriatra chamava de "Síndrome do Entardecer" - aquele momento em que pacientes com Alzheimer tornavam-se mais confusos e agitados com a diminuição da luz do dia, da luz natural. Mas a filha tinha outro nome para isso: Síndrome do "Eu quero ir para minha casa!" Ela havia aprendido, após incontáveis noites difíceis e lágrimas derramadas em silêncio, a identificar cada pequeno sinal.
"Continue dobrando as camisas, mãe," respondeu com voz suave, disfarçando a preocupação que crescia em seu peito.
A coreografia do fim de tarde
E assim começou sua coreografia silenciosa, ensaiada ao longo de meses de tentativas e erros. Como uma bailarina que conhece cada movimento de sua apresentação, Maristela iniciou a sequência que poderia evitar mais uma noite de angústia.
Primeiro, as janelas. Uma a uma, fechou-as com naturalidade fingida, como se apenas quisesse proteger a casa do vento que nem existia. As cortinas foram puxadas com delicadeza, bloqueando a visão do céu que começava a mudar de cor. Depois, acendeu as luzes da casa. A sala primeiro, como quem não quer nada. A copa em seguida, com a desculpa de que estava escurecendo. A cozinha logo após, porque "fica mais aconchegante assim, não acha, mãe?". Por fim, a área de serviço, completando o circuito que transformava o ambiente em um espaço sem sombras ou penumbras, que pudessem confundir uma mente já tão fragilizada pela doença de Alzheimer.
Na cozinha, a televisão foi ligada com precisão calculada. O canal já estava sintonizado na TV Aparecida - a missa das cinco e meia começaria em instantes. Maristela sabia, por experiência própria, como os rituais religiosos ancoravam sua mãe à realidade. As orações, decoradas desde a infância, permaneciam intactas na memória de sua mãe.
Sentou-se à mesa da cozinha, sozinha de início. Esperou. Não demorou para que Dona Hildegarda, atraída pelo som familiar das orações, abandonasse as roupas dobradas e se juntasse a ela, como se aquilo fosse o plano desde o começo. "Ave Maria, cheia de graça...", murmurava sua mãe junto com o padre na televisão, os dedos entrelaçados sobre o colo em um gesto tão familiar que apertava o coração de Maristela.
A tarde em que tudo deu errado
Enquanto observava aquela cena, não conseguiu evitar que a memória do mês anterior invadisse seus pensamentos. Maristela precisou sair para resolver questões no seu banco - coisas que não podiam esperar. Deixou Juliana, sua filha de dezesseis anos, cuidando da avó. "Só duas horas", havia prometido.
Ao retornar, o som dos soluços atingiu-a antes mesmo de abrir completamente a porta. Sua mãe, em completo desespero, batia na porta da sala como se fosse uma prisioneira. "Quero ir para minha casa, por favor, me deixem ir para minha casa!", implorava com uma voz que não parecia ser daquela mulher que um dia fora tão meiga. Juliana, encostada na parede oposta, chorava segurando o celular, implorando para que a mãe voltasse logo.
"A vó começou a ficar estranha quando o céu ficou laranja", explicou depois sua filha, entre lágrimas de culpa e frustração. "Tentei de tudo, mas ela não me reconhecia mais. Ficava perguntando onde ficava a sua casa, dizendo que precisava voltar antes do anoitecer, porque o pai dela ficaria preocupado."
"O pai dela" - o bisavô de Juliana - havia falecido há mais de três décadas.
Aquela tarde havia sido uma dura lição. A casa onde Dona Hildegarda criara seus filhos, onde celebrara bodas de ouro com o marido, onde conhecera cada neto - aquela mesma casa podia, em questão de segundos, transformar-se em território desconhecido dentro de sua mente. O "quero ir para minha casa" não era um simples capricho ou confusão momentânea. Era o eco doloroso de uma mente que vagava entre tempos distintos, buscando um lugar de segurança que existia apenas em suas memórias, cada vez mais fragmentadas.
Aprendendo a prevenir a Síndrome do Entardecer
Depois daquele dia, Maristela procurou entender com detalhes sobre como isso acontecia. Conversou longamente com o médico geriatra, frequentou grupos de apoio para familiares de pacientes com Alzheimer, leu informações na internet durante as noites de insônia. Foi assim que descobriu sobre a Síndrome do Entardecer ou Síndrome do Pôr do Sol e desenvolveu, aos poucos, sua rotina preventiva.
Agora, enquanto o sol se punha completamente lá fora, ela observava sua mãe recitar as orações junto com a televisão. As mãos enrugadas pelo tempo repousavam tranquilas sobre a mesa da cozinha, tão familiar quanto a própria casa. Havia uma paz que apenas os pequenos rituais conseguiam trazer.
O relógio marcava 17:55h. Mais uma pequeníssima vitória em uma guerra que Maristela sabia que um dia perderia. Mas não seria hoje, não seria agora. Por enquanto, graças ao amor que havia aprendido a se reinventar diariamente, sua mãe permaneceria tranquila naquela noite.
Dona Hildegarda ergueu os olhos da televisão e sorriu para a filha - um daqueles raros momentos de lucidez, que surgiam como presentes inesperados. "Que bom estar em casa com você, filha", disse, com uma clareza que fez os olhos de Maristela marejarem.
E era verdade, mesmo que amanhã sua mãe não se lembrasse disso. Mesmo que, em algum momento futuro, aquela mesma frase fosse substituída pelo doloroso "quero ir para minha casa". Naquele instante, o amor havia conseguido criar uma ponte entre dois mundos: o real e aquele que existia apenas nas memórias distantes de uma mãe com Alzheimer.
Maristela segurou a mão de sua mãe com delicadeza. "Sim, mamãe. Estamos em casa."

Dr. Márcio Fernando Borges
Geriatra e Cardiologista · CRM-SC 20861 · RQE 12089 · RQE 12090
Médico com mais de 35 anos de experiência em Geriatria e Cardiologia. Referência em saúde da pessoa idosa no oeste de Santa Catarina.
