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O geriatra e o futuro de sua saúde

Dr. Márcio Borges
Publicado em 02 de novembro de 2026
O geriatra e o futuro de sua saúde

“Doutor, agora estou vivendo uma época de vacas magras.”

Quem me disse isso foi uma cliente de 80 anos, sentada na minha frente no consultório. Tinha ficado viúva fazia pouco tempo. A saúde já não era a mesma, os filhos moravam em outras cidades, e a pensão que sobrou era 60% do que o casal recebia quando o marido estava vivo. As contas, claro, continuavam chegando do mesmo tamanho.

Antes de qualquer orientação, ela precisava ser ouvida. Nenhuma receita de exercício ou de alimentação dá conta da saudade, e eu sei disso. Então ouvi. Mas a frase dela ficou comigo o resto do dia.

Vacas magras. De onde vem isso?

Vem de muito longe, do livro de Gênesis, capítulo 41. O faraó do Egito teve dois sonhos: sete vacas gordas e bonitas saíam do rio Nilo, e logo atrás vinham sete vacas magras, feias, que devoravam as primeiras. Acordou assustado, mas logo dormiu de novo. E sonhou com sete espigas cheias e viçosas, engolidas por sete espigas secas, queimadas pelo vento. Ninguém na corte do faraó soube dizer o que aquilo significava.

Chamaram José, um jovem hebreu que estava preso. Diziam que ele sabia interpretar os sonhos de outras pessoas. E Ele explicou os sonhos assim: viriam sete anos de fartura e, depois, sete anos de seca e fome. E não ficou só na interpretação, deu um conselho prático: guardem o excesso agora, nos anos bons, para ter o que comer nos anos ruins. O Egito fez isso e passou depois pelos 7 anos de seca sem sofrimento e carestia.

José falava de grãos. Eu, como geriatra, que trabalho com pessoas idosas, enxergo nessas histórias, uma grande lição para o futuro.

Aos 50, 60, 70 anos, a maioria de nós ainda está nos anos de vacas gordas. Trabalha, viaja, cuida da família, faz planos, sobe escada sem pensar. É fácil achar que isso dura para sempre. A pergunta que eu faço aos meus clinetes (e a mim mesmo) não é se vamos chegar aos 80. A maior parte de nós vamos chegar! A pergunta é como chegar aos 80 anos!

Chegar aos 80 de pé, tomando banho sozinho, saindo para encontrar a família e os amigos, decidindo sobre a própria vida? Ou chegar dependendo dos outros para quase tudo?

Isso não se resolve no dia em que a dificuldade aparece. Se resolve muito antes, aos poucos, no que a gente vai guardando no celeiro de nosso corpo. E eu diria que existem duas reservas que valem mais que qualquer outra.

A primeira é o músculo.

Muita gente ouve “músculo” e pensa em academia, em estética. Na geriatria o assunto é bem mais sério. Músculo é o que deixa você levantar do vaso sanitário sem ajuda. Subir um degrau. Carregar a sacola do mercado. Caminhar até a casa de alguém que você ama. É também o que segura o equilíbrio e protege contra as quedas, e uma queda, depois dos 80, muitas vezes muda tudo. Quando vem uma doença ou uma internação, o músculo guardado é o que impede a pessoa de ficar acamada e perder a independência.

Só caminhar não basta. É preciso também exercício que desafie a força e o equilíbrio, respeitando o limite de cada um e com orientação de um profissional capacitado.

A segunda reserva é a saúde do metabolismo e da circulação.

Aqui estão os hábitos de todo dia: mexer o corpo, comer comida de verdade, plantas e protéina de verdade, dormir com regularidade, não fumar, cuidar da pressão, do açúcar e do colesterol. Parece pouco, mas é isso que protege os vasos do coração e do cérebro. O que faz bem ao coração faz bem à memória. Muitos dos problemas que a gente associa à velhice (confusão, esquecimento, dependência) têm muito a ver com o que os vasos viveram durante décadas.

Só que há uma diferença importante entre o celeiro de José e o nosso. O trigo guardado fica guardado. A saúde, não. Fazer exercício por três meses e achar que o benefício está garantido para sempre não funciona. A reserva do corpo precisa ser usada e renovada o tempo todo. Tem mais a ver com plantar e cuidar da lavoura do que com encher um depósito.

Isso garante uma velhice sem doença? Não, e seria desonesto dizer que sim. Genética, condições sociais, acesso a cuidado e muita coisa que a gente não controla também pesam. Mas dá para melhorar bastante as chances: menos quedas, menos tempo preso a uma cama, mais autonomia, um cérebro ativo e, em muitos casos, menos remédios pata tomar todos os dias.

Também não existe uma data marcada para as vacas magras começarem. Tem gente de 80 anos cheia de vida e gente de 60 já com limitações grandes. E nunca é tarde para melhorar. Depois dos 80 o músculo ainda responde ao treino, a casa pode ser adaptada, doenças podem ser tratadas, laços podem ser refeitos.

Por isso, quando penso na minha cliente do começo da história, penso em duas tarefas ao mesmo tempo. A primeira é cuidar de quem já está atravessando o período difícil: ela precisa de acolhimento, de companhia e de ajuda concreta agora, dentro da realidade dela. A segunda é nos prepararmos, nós que ainda estamos na fartura, na época de vacas gordas.

Cada caminhada, cada exercício de força, cada noite bem dormida, cada consulta que você não adia é um pouco de grão guardado para a pessoa que você vai ser daqui a vinte ou trinta anos.

Chegar aos 80 anos é uma conquista! Chegar bem aos 80 anos é uma escolha, e começa a ser feita muito antes.

E você, o que tem estocado no seu celeiro, nessa época de vacas gordas?

Dr. Márcio Borges

Dr. Márcio Fernando Borges

Geriatra e Cardiologista · CRM-SC 20861 · RQE 12089 · RQE 12090

Médico com mais de 35 anos de experiência em Geriatria e Cardiologia. Referência em saúde da pessoa idosa no oeste de Santa Catarina.

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