Não se culpe!

As coisas não andaram do jeito que você queria. Seu pai e sua mãe envelheceram, ficaram mais dependentes... você teve que largar seu emprego para cuidar deles... até contratou cuidadoras para te ajudar. E no final, mesmo fazendo tudo "certo", o cuidado de seus pais idosos não estava indo bem, estava ficando até perigoso cuidar deles em sua própria casa. Poucas pessoas de sua família te ajudam, você se sente cansada e no fundo do poço. E sempre vem em sua memória aquela promessa, aos seus pais, de que sempre cuidaria deles na velhice.
Então, você toma umas das decisões mais difíceis de sua vida: institucionalizar sua mãe, seu pai.
Não somente no Brasil, mas em todo o mundo, colocar as pessoas idosas em uma instituição de longa permanência - ILPI (casa de repouso, clínica geriátrica, lar de idosos, asilo...) representa fracasso familiar em cuidar em casa. Quando se toma esta decisão, ela nunca é rápida, ela sempre envolve inúmeras nuances e questões. E sim, é uma decisão difícil, muito difícil! E o que não faltam são pessoas que julgam simploriamente, criticam e têm sempre uma solução (que não passa por elas mesmas) de que tudo se resolve e se ajusta, no cuidado com os pais.
Sabemos que, mesmo tomando esta decisão de institucionalizar, após tentar com todas as suas forçar cuidar deles em casa, de avaliar inúmeras casas de repouso, de pensar mil vezes se esta é a decisão mais acertada, pensando no cuidado e na segurança; apesar de tudo, esta decisão poderá ser muito dolorosa para você, poderá trazer muita tristeza.
Não se culpe!
Mostraremos algumas razões para você não sentir culpada(o), aliviando um pouco a tristeza e a carga emocional que tudo isso gera:
- Você pode pensar que não é uma boa cuidadora, um bom cuidador
. Ou seus familiares querem que você se culpe por falhar no cuidado, levando seu amado idoso para ILPI. Errado! Temos certeza de que você fez tudo para dar as melhores condições de cuidado e segurança. Até parou a sua vida, para viver a vida dos pais e cuidar deles. Aprendeu todas as dicas de como cuidar e como gerenciar os cuidados (médicos, planos de saúde, cuidadoras, a própria casa). Entretanto, quanto maior a dependência, maior é o custo emocional e físico de quem cuida, a(s) doença(s) pioram cada vez mais e as necessidades de cuidado aumentam também. Nossa casa não tem este suporte e não possui este nível de cuidado. Você não falhou, ao contrário, você está fazendo o melhor! Dane-se o que sua família acha, o que o vizinho irá falar ou que seus amigos comentam. Eles não te ajudam e não vivem a sua vida!
- Coloquei a minha mãe, meu pai num lar de idosos e, depois de algum tempo, a saúde deles piorou
. Mais de 90% das pessoas idosas residentes em instituições de longa permanência são classificadas como de grau de dependência severo (grau III). Isto significa que são pessoas idosas muito frágeis, não só do ponto de vista físico, mas também do ponto de vista mental (depressão, Alzheimer). Neste caso, fica muito clara a postura de expectativa realista: com o tempo, as pessoas muito idosas apresentam piora dos seus quadros clínicos, têm mais internações hospitalares e apresentam mais probabilidades de virem a falecer. Mesmo com o melhor cuidado do mundo, seja em sua casa, seja na ILPI, seja em hospital conceituado. Isto não depende do seu empenho ou de sua maneira de cuidar, de prestar auxílio no tratamento de seus pais. Não depende de você! Talvez, em sua casa, com a melhor equipe de cuidados do mundo, seu amado pai ou mãe piorassem mais rápido e sofressem mais. Não se culpe, se ocorrer alguma intercorrência na saúde deles, ao residirem em uma clínica geriátrica.
- Ouço esta frase sempre que converso com familiares que colocaram seus pais em uma ILPI: "Prometi à mamãe que sempre cuidaria dela, que nunca a abandonaria!"
Pare de martirizar! O que você quer é sempre o melhor para eles. E em casa você não estava conseguindo cumprir sua promessa, estava ficando ruim. Por isto o lar de idosos. E quando seus irmãos reclamarem desta situação, lembre a eles que você vai todo o santo dia visitar sua mãe, seu pai na ILPI. Que você conversa com as enfermeiras sobre os cuidados, de como passou a noite, se dormiu bem, se está se alimentando bem. Está sempre checando com o médico sobre as queixas e os problemas que estão surgindo. Sua promessa não foi quebrada, foi mantida ao extremo, foi levada a um outro nível superior de amor e de cuidado. E você sempre está junto, nunca abandona!
- Cuidados de longa permanência para pessoas idosas tem data para começar (quando vem a fragilidade e a dependência) e não se prevê quando irá terminar.
A doença de Alzheimer, por exemplo, pode levar uma família a cuidar da pessoa idosa durante mais de 10 anos! Por mais que se tenha condições financeiras, conhecimento e estrutura emocional, ninguém, repito, ninguém sai ileso e sem consequências para a saúde mental e física desta cansativa jornada de cuidar. O familiar que cuida também tem que viver sua vida e de sua família (marido, esposa, filhos e netos). São gente como a gente, não são heróis ou seres de outro mundo. Têm o direito de chorar, de ficar cansados, de se desesperarem, de curtirem férias, de se divertirem. Até de falhar... Por favor, não se culpe por isto!

Dr. Márcio Fernando Borges
Geriatra e Cardiologista · CRM-SC 20861 · RQE 12089 · RQE 12090
Médico com mais de 35 anos de experiência em Geriatria e Cardiologia. Referência em saúde da pessoa idosa no oeste de Santa Catarina.
