Explicar Alzheimer para as crianças

*Retirado do livro "A Caixa de memórias" - Baixe o pdf na seção de Cursos e E-books
1. Converse com a criança e fale a verdade
A primeira dica é sempre conversar com as crianças. Não é necessário entrar em detalhes sobre a doença. Converse de acordo com a capacidade de entendimento de cada criança. Fale a verdade e não invente. Não dê a falsa impressão de que tudo vai melhorar. Se a criança evita falar sobre o assunto e se mostra triste com a situação, uma boa saída é usar outras formas de expressão, como o desenho. Ao estimular a criança a desenhar sobre temas ligados ao universo familiar, podemos observar como ela assimila a situação que a família está vivendo. Assim, fica mais fácil conversar, explicar e cuidar melhor também dos filhos. Nas histórias "A Caixa de Memórias" e "As Viagens do Elefante Azul", a mãe de Sofia e os pais de Maiara se sentaram com as crianças e conversaram sobre o que estava acontecendo com as vovós
2. Responda às perguntas difíceis com sinceridade
A segunda dica é sobre as perguntas desconcertantes que as crianças fazem. Em nossa última história, Samuel pergunta à mãe se a avó vai morrer. O que ela fez? Foi clara e sincera. Sim, a vovó estava muito cansada, a doença estava muito avançada e não se sabia quanto tempo ela ainda viveria. As respostas devem ser sinceras, mas proporcionais à pergunta, à idade e às crenças das família. E, sem pestanejar, Samuel emendou outra pergunta, ainda mais difícil de responder: para onde a vovó vai quando morrer?
Às vezes, devolver a pergunta — "o que você acha?" —, ajuda o adulto a compreender o que a criança já sabe, teme ou imagina. Comparações e histórias podem ajudar a explicar questões difíceis. Volte à história "Vovó Não Está Mais com a Gente" e leia novamente a comparação que a mãe de Samuel fez. Na história "O Segredo das Estrelas", o próprio Bisa Antônio confidenciou a Sarah que já estava doente e esquecido, mas que queria passar tudo o que sabia sobre as estrelas e os planetas. E terminou mostrando à menina o segredo da estrela Sirius.
3. Deixe a criança ajudar e fazer companhia
A terceira dica é permitir que as crianças ajudem , de modo voluntário, seguro e adequado à idade. A companhia e o carinho afastam a angústia da doença e aproximam netos e avós cada vez mais, mesmo que a pessoa idosa já não reconheça as crianças. Ver televisão juntos, almoçar juntos, brincar na sala perto dos avós, estar por perto e fazer companhia — tudo o que estiver ao alcance das crianças e as faça se sentir participantes da vida da família. Na história "O Jardim Secreto de Vovô", esses aspectos de companhia, presença e cuidado ficam evidentes. O vovô João ensinou Pedrinho a cuidar da terra, da natureza e da beleza que só um jardim pode dar. E foi justamente esse elo com o neto que fez o vovô João sair da apatia e da tristeza que a doença de Alzheimer causou. A companhia do neto ajudou o avô a retomar uma atividade que ele tanto apreciava.
4. A companhia dos animais de estimação
A quarta dica, que muitas famílias conhecem e estimulam, é a atividade com pequenos animais, às vezes chamadas de pet terapia. "Bolacha Não Deixa Esquecer" mostra isso de maneira clara. O cão, mesmo com suas peraltices, despertou na vovó de Daniel o interesse e a alegria. Aproximou toda a família da vovó, e os domingos retomaram sua alegria. Outro ponto importante foi que acendeu em Daniel a vontade de cuidar.
5. Faça da história dos avós um exemplo de vida
Como última dica, fazer da própria história da avó querida, do avô querido, um exemplo de vida. Nossos avós trilharam uma vida com muitas lições que devem ser partilhadas com os netos, como exemplos e valores. Interessante frisar que, na história "Uma Carta para o Futuro", a própria avó Esmeralda é a protagonista, mesmo estando muito doente. Prevendo sua finitude, escreveu cartas para as duas netas, como guardiã da memória da família, deixando ensinamentos e valores para as crianças. Por fim, como Valentina nos mostra em "O Caderno das Histórias Esquecidas", não podemos deixar que as histórias de nossos antepassados sejam esquecidas, que fiquem para trás. Nossas memórias, afinal, são nossas histórias.

Dr. Márcio Fernando Borges
Geriatra e Cardiologista · CRM-SC 20861 · RQE 12089 · RQE 12090
Médico com mais de 35 anos de experiência em Geriatria e Cardiologia. Referência em saúde da pessoa idosa no oeste de Santa Catarina.
