Comunicar-se bem com a pessoa idosa dependente

Grande parte de nossos pequenos e grandes problemas, sejam eles pessoais ou de toda uma nação, ocorrem devido à incapacidade de comunicação, ou seja, de saber ouvir, falar e dialogar. É claro que a comunicação bem feita também foi uma das responsáveis pelo enorme avanço tecnológico que temos atualmente. Para que nos comuniquemos devidamente deveremos saber falar, expressar em uma linguagem que o nosso ouvinte ou interlocutor entenda e que possa também dar o retorno satisfatório, também se fazendo entender. Como define Luciana Betarchini, fonoaudióloga, "comunicar é partilhar com alguém um conteúdo de informações, pensamentos, ideias e desejos, por meios de códigos comuns, sendo a linguagem falada a mais utilizada universalmente".
Para que a comunicação seja eficaz entre as pessoas, além de um idioma em comum, devemos ter uma razoável capacidade verbal, falando com certa clareza, além de ter uma audição que entenda o que está sendo dito e, finalmente, os interlocutores têm de prestar atenção no diálogo travado. Falar, ouvir e prestar atenção. Pré-requisitos simples, porém fundamentais.
Por que a comunicação é essencial no cuidado da pessoa idosa dependente
Em nosso caso, a boa comunicação com o idoso dependente, seja qual for o tipo de dependência a que está acometido, é fator primordial para um cuidado eficaz. O familiar/cuidador deve ter uma boa noção a respeito deste assunto, pois muitos dos problemas advindos da tarefa de cuidar dizem respeito da falha de comunicação. E o que é pior, muitas vezes damos ao idoso a culpa de não se comunicar bem conosco!
Como foi dito acima, falar claramente, ouvir o que está sendo falado e prestar atenção são os pré-requisitos para a boa comunicação. Com o idoso dependente estas máximas também devem ser aplicadas. As várias formas de dependências podem também acometer a capacidade do idoso falar com clareza, de ouvir e entender o que o interlocutor está dizendo e de apreciar, entender e prestar a devida atenção na conversa.
Quando a pessoa idosa tem dificuldade para falar
Vamos por parte. Em primeiro lugar, a capacidade de se expressar, de se comunicar. Doenças como Alzheimer e acidente vascular cerebral (derrame cerebral) podem dificultar o entendimento do que o idoso está comunicando. Pode haver trocas de palavras, frases sem nexo ou cortadas pelo meio. Outro fator comum à dificuldade de falar seria a voz baixa, a voz rouca e o cansaço para falar, comuns às doenças pulmonares e cardíacas. Problemas odontológicos também dificultam a capacidade de verbalização do idoso. Próteses dentárias mal-posicionadas, a falta de próteses e o pouco cuidado com a saúde bucal estão entre os maiores inimigos da boa dicção.
Quando a pessoa idosa não ouve ou não entende bem
A capacidade de ouvir o que está sendo dito e, muito mais que isto, a capacidade de entender o que está sendo dito constituem, para o idoso dependente, a principal causa de comunicação deficitária. O termo disacusia define a dificuldade de ouvir e de entender o que possivelmente se ouve. É uma das mais comuns patologias nos idosos dependentes, principalmente após a oitava década. É talvez a deficiência mais negada pelos idosos: "Não precisa gritar! Eu estou ouvindo perfeitamente!".
Devemos perceber problemas de audição nos idosos, quando eles se comportam de maneira vaga, quase que isolados, não procurando convívio social. A melhor solução para amenizar e melhorar a surdez e o isolamento é o uso do aparelho auditivo. Novos estudos mostram inclusive que, além de melhorar o isolamento social e a surdez de pessoas mais idosas (muito comum nessa faixa etária), pode ajudar a prevenir a doença de Alzheimer!
Dicas práticas para se comunicar melhor com a pessoa idosa
Algumas dicas para melhorar a comunicação com o idoso dependente:
- Otimizar os pré-requisitos, já descritos, para uma boa comunicação com o idoso (visão, audição, próteses dentárias, prevenir doenças neurológicas, etc.)
- Sempre tratar o idoso com respeito e chamando-lhe pelo nome. Evitar as expressões como "vovô", "minha criança", "coitadinho", "paciente do leito x", "aquele que tem Alzheimer", etc.
- Lembrar que o nome é seu maior patrimônio, é a sua marca registrada num mundo cheio de Josés e Marias. Nada é mais importante que o próprio nome. Quando alguém fala seu nome, é música para seus ouvidos!
- Mantenha sempre a tranquilidade, mostre-se calmo.
- Seja flexível, não exija aquilo que o idoso não pode dar.
- Não tenha pressa para falar e não fique com pressa de ouvir o que o idoso quer falar.
- Procure guiar a conversa, ajudar o idoso a se comunicar. Não controle a conversa, não deixe o idoso falar só o que você quer!
- Não é só a palavra que sai da sua boca que tem importância ao se ouvir. Seus gestos, a carga emotiva da voz, o conteúdo do que se fala e a representação do que se fala, por quem está falando (verdade/mentira).
- Esteja sempre olhando para o idoso, quando falar com ele. Perceba se ele está olhando para você e entendendo o que se está dizendo.
- Evite mostrar-se com raiva ou chateado com o idoso. O olhar de tranquilidade e bondade, o olhar de carinho e de bom humor contagia qualquer pessoa. Imagine praticando isto com o idoso que é seu cliente ou que é seu familiar!
- Numa conversa, nunca discuta ou tente convencê-lo. Geralmente, quando isto acontece, a conversa fica áspera, complexa e de difícil entendimento pelo idoso.
- Deve-se falar claro e lentamente, sem elevar muito a voz. Se for necessário, podem-se repetir palavras que tenham o mesmo sentido. Exemplo: "José, vamos tomar banho... Lavar o corpo... Entrar no chuveiro?"
- Ao dizer nomes, dê uma orientação: "Maria, sua filha.", "João, seu vizinho."
- Comunicar com frases curtas e simples, enfocando somente uma ideia ou opinião de cada vez.
- Dê tempo para o idoso entender o que lhe foi dito.
- Para portadores de demência, quando fizer uma pergunta, uma escolha, nunca dê muitas opções: "Mamãe, a senhora prefere a saia azul ou a marrom"?
- Antes de dar uma notícia ruim, lembrar sempre se o idoso é capaz de entender o que vai ser falado.
- Tenha uma comunicação positiva! Evite a palavra "NÃO".
- O que é melhor ouvir? "Ô vô, não fique andando pela casa deste jeito!" ou "Sr. Sebastião, sente um pouco comigo e vamos ver o Roberto Carlos cantar na televisão".
- Mantenha suas promessas. Portanto, só prometa aquilo que puder cumprir. Crie confiança!
- Nunca exclua o idoso de uma conversa, na qual ele faça parte.
- Ambiente barulhento ou estressante pode piorar a capacidade de entendimento do idoso.
- Procure entender o "idioma" do corpo do idoso. Expressões de sofrimento, de raiva, de angústia, de tristeza, de espanto, podem dizer mais sobre o que o idoso expressa, do que sua própria fala.
- Se o idoso permite, o uso do toque, do abraço e do beijo são ótimas formas de comunicação não-verbal.

Dr. Márcio Fernando Borges
Geriatra e Cardiologista · CRM-SC 20861 · RQE 12089 · RQE 12090
Médico com mais de 35 anos de experiência em Geriatria e Cardiologia. Referência em saúde da pessoa idosa no oeste de Santa Catarina.
